“Inglês fluente” aparece em quase toda vaga para time internacional. O problema é que ninguém define o que isso quer dizer. Para um recrutador, pode ser falar sem sotaque. Para o tech lead, pode ser escrever um bom PR. Para o candidato, pode ser qualquer coisa acima de “intermediário” no currículo.

O resultado aparece dos dois lados. Você perde bons devs que leem e escrevem muito bem, mas travam numa conversa rápida. E contrata gente que conversa com desenvoltura, mas não consegue explicar uma decisão técnica com clareza. Este artigo propõe um jeito mais útil: definir o nível por tarefa, avaliar com um roteiro e apoiar quem está perto do necessário.

Níveis por função, com o que dá para observar

Em vez de rótulos como “básico” e “avançado”, descreva o que a pessoa consegue fazer. Quatro níveis cobrem a maioria das funções de tecnologia.

Nível 1: leitura técnica

  • Lê documentação, issues e mensagens de erro sem depender de tradutor.
  • Entende um ticket escrito em inglês e faz perguntas por escrito, mesmo que simples.

Nível 2: escrita no fluxo do time

  • Escreve descrições de PR, comentários de code review e atualizações em tickets que o time entende sem pedir esclarecimento.
  • Registra uma decisão técnica com contexto, opção escolhida e motivo.

Nível 3: conversa no time

  • Participa da daily e da planning, diz o que fez, o que vai fazer e o que bloqueia.
  • Discute uma solução técnica com colegas, pede para repetir quando não entende e explica o próprio raciocínio.

Nível 4: condução

  • Apresenta uma demo ou uma proposta para stakeholders de negócio.
  • Negocia escopo e prazo, discorda com clareza e conduz reuniões com várias áreas.

Qual nível para qual função

Como referência inicial, ajuste ao seu contexto:

  • Dev em time com tech lead bilíngue: níveis 1 e 2, com o 3 desejável.
  • Dev em time todo internacional: até o nível 3.
  • QA: nível 2 sólido, porque bug report mal escrito vira retrabalho, e 3 se participa de refinamentos.
  • DevOps e sustentação: nível 2 forte, já que incidentes são comunicados por escrito e sob pressão.
  • Tech lead, arquiteto, PM e PO: nível 4, porque a função é justamente fazer a ponte.

Como avaliar na entrevista

Certificado mostra um momento. A entrevista mostra como a pessoa usa o idioma no trabalho. Um roteiro simples, dentro da entrevista técnica, resolve.

Roteiro de 20 minutos

  1. Aquecimento, 3 minutos: peça para a pessoa se apresentar e contar o que faz hoje. Serve para deixar a conversa fluir, não para avaliar.
  2. Projeto real, 7 minutos: “Conte um projeto recente. Qual era o problema, o que você decidiu e por quê?” Observe se ela consegue explicar causa e consequência, não só listar tecnologias.
  3. Pergunta de aprofundamento, 5 minutos: escolha uma decisão que ela citou e pergunte “o que você faria diferente?” ou “qual foi a alternativa descartada?”. Aqui aparece a capacidade de sair do discurso ensaiado.
  4. Situação de trabalho, 5 minutos: simule algo da rotina. Para dev, “explique este bug para o PO”. Para PM, “o cliente quer antecipar a entrega em duas semanas, responda”.

Complemento por escrito

Para funções que exigem nível 2, peça um texto curto: a descrição de um PR hipotético ou um resumo de uma decisão técnica. Dez minutos bastam e mostram muito sobre clareza e organização.

O que observar

  • A pessoa se faz entender, mesmo com erros de gramática?
  • Quando não sabe uma palavra, ela contorna ou trava?
  • Pede para repetir quando não entende, em vez de responder outra coisa?
  • O vocabulário técnico é preciso?

Sotaque não entra na lista. Não atrapalha o trabalho e não deveria atrapalhar a avaliação. Para montar o restante da entrevista, veja o artigo sobre entrevista técnica que funciona.

Como apoiar quem está no limite

Às vezes o melhor candidato técnico está um pouco abaixo do nível pedido. Antes de descartar, veja se o time pode absorver essa diferença por alguns meses.

  • Priorize a escrita no começo. Daily escrita, decisões em ticket e resumo de reunião dão tempo para a pessoa ler, entender e responder bem.
  • Combine um “parceiro de idioma” no time, alguém que tira dúvidas sem julgamento nas primeiras semanas.
  • Grave ou resuma as reuniões importantes. Rever depois ajuda quem perdeu partes da conversa.
  • Crie um glossário do produto, com os termos de negócio que ninguém aprende em curso.
  • Dê feedback específico. “No review de ontem, a explicação do bug ficou confusa, tente estruturar em causa, impacto e correção” ajuda mais que “melhore o inglês”.

Combine um prazo e um critério de evolução, por exemplo, conduzir a própria parte da review em 60 dias. Assim, a decisão fica objetiva para os dois lados.

Erros comuns ao exigir “fluente”

  • Usar o mesmo requisito para todas as vagas. Isso reduz o universo de candidatos sem necessidade.
  • Avaliar em conversa social. Falar bem de viagens e hobbies não prova que a pessoa explica uma arquitetura.
  • Confundir sotaque com nível. Leva a descartar gente capaz e a aprovar gente que só soa bem.
  • Avaliar só no fim do processo. Se o idioma é eliminatório, avalie cedo, para não gastar três etapas com quem não vai passar.
  • Esquecer a escrita. Em times distribuídos, boa parte da comunicação é escrita. Quem escreve bem ganha peso.

Como a Devgo avalia idioma

Na Devgo, português, inglês e espanhol são avaliados dentro da própria entrevista, com base no que a função vai exigir no dia a dia do cliente. O deep dive inicial de 30 minutos já define esse nível, junto com stack, senioridade e cultura, e a shortlist chega com essa avaliação feita.

Hoje, 82% das indicações da Devgo são aprovadas pelos clientes. Depois do start, um agente Devgo acompanha a alocação e ajuda a identificar cedo se a comunicação está funcionando.

Não peça “fluente”: descreva o que a pessoa vai fazer no idioma e avalie exatamente isso.